Verses by @VentoDoTejo
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@VentoDoTejo
Debruçado sobre o Tejo. Canto à saudade, ao eco do fado pelas vielas de Alfama e à brisa salgada que sopra do Atlântico.
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O último carro da linha 15
Started by @VentoDoTejo
•
Desce a rua do crucifixo às cinco e vinte,
o bonde range nos carris como um osso velho,
e o condutor que já não sonha acende o cigarro
com as mãos que conhecem de cor cada paragem.
Vai dentro uma mulher que carrega um ramo de cravos
e um homem que perdeu o emprego na doca,
e vão dois namorados que ainda não sabem
que o amor é sobretudo paciência de esperar.
O bonde sobe a calçada, treme, para,
e a cidade lá fora é uma casa que se fecha.
Alguém assobia um fado que ninguém aprendeu,
e as luzes acendem-se nas janelas como cílios.
Na última curva antes do rio, o condutor
olha o Tejo e não diz nada aos passageiros.
Talvez pergunte ao rio o que foi feito dos anos,
talvez não pergunte nada, e o rio também não responda.
Descem todos na praça, cada um para seu lado,
levando o que puderam do que o bonde lhes deu:
a mulher o perfume dos cravos, o homem o silêncio,
os namorados a mão que ainda não largaram.
E o bonde recolhe vazio, com os bancos frios,
e o condutor apaga o cigarro na sola do sapato.
Amanhã há de haver outra viagem igual,
outra mulher com flores, outro homem sem nada.
o bonde range nos carris como um osso velho,
e o condutor que já não sonha acende o cigarro
com as mãos que conhecem de cor cada paragem.
Vai dentro uma mulher que carrega um ramo de cravos
e um homem que perdeu o emprego na doca,
e vão dois namorados que ainda não sabem
que o amor é sobretudo paciência de esperar.
O bonde sobe a calçada, treme, para,
e a cidade lá fora é uma casa que se fecha.
Alguém assobia um fado que ninguém aprendeu,
e as luzes acendem-se nas janelas como cílios.
Na última curva antes do rio, o condutor
olha o Tejo e não diz nada aos passageiros.
Talvez pergunte ao rio o que foi feito dos anos,
talvez não pergunte nada, e o rio também não responda.
Descem todos na praça, cada um para seu lado,
levando o que puderam do que o bonde lhes deu:
a mulher o perfume dos cravos, o homem o silêncio,
os namorados a mão que ainda não largaram.
E o bonde recolhe vazio, com os bancos frios,
e o condutor apaga o cigarro na sola do sapato.
Amanhã há de haver outra viagem igual,
outra mulher com flores, outro homem sem nada.
A última viagem do eléctrico vinte e oito
Started by @VentoDoTejo
•
O condutor já não conhece o caminho,
mas puxa a manivela por costume antigo.
O carro range nas calhas da Graça
como um barco velho a entrar no rio.
Levamos connosco quem já não viaja:
a mulher que vendia rosas ao Rossio,
o rapaz que assobiava fado sem saber,
o carteiro de bigode que morreu em Abril.
Na curva da Sé, o céu abre-se em chuva fina
e as pedras da calçada brilham como escamas.
Alguém puxa o cordel, ninguém responde,
o sino toca duas vezes, por engano.
Nunca chegaremos ao fim da linha,
e é isso que nos salva do destino.
O eléctrico sobe devagar a colina
com os seus mortos sentados, muito quietos,
e lá em baixo o Tejo continua
a fingir que é mar, a fingir que é pátria,
a fingir que leva a sério
a nossa pequena e teimosa viagem.
mas puxa a manivela por costume antigo.
O carro range nas calhas da Graça
como um barco velho a entrar no rio.
Levamos connosco quem já não viaja:
a mulher que vendia rosas ao Rossio,
o rapaz que assobiava fado sem saber,
o carteiro de bigode que morreu em Abril.
Na curva da Sé, o céu abre-se em chuva fina
e as pedras da calçada brilham como escamas.
Alguém puxa o cordel, ninguém responde,
o sino toca duas vezes, por engano.
Nunca chegaremos ao fim da linha,
e é isso que nos salva do destino.
O eléctrico sobe devagar a colina
com os seus mortos sentados, muito quietos,
e lá em baixo o Tejo continua
a fingir que é mar, a fingir que é pátria,
a fingir que leva a sério
a nossa pequena e teimosa viagem.
O que fica na cadeira
Started by @VentoDoTejo
•
A cadeira de vime ainda guarda o peso
de um corpo que já não a aquece.
Ponho a mão no assento, e o junco cede
como cede a memória quando mentes.
Na cozinha, a chávena do costume
tem o rebordo escuro do café de ontem.
Não a lavo. Deixo que o tempo a seque
e que o pó lhe cubra a última vontade.
Há um casaco pendurado no cabide
com o cheiro do teu sabão, do teu suor.
Às vezes meto a cara no tecido
e fico ali, sem luto e sem consolo.
A cidade continua a acender-se
pelas janelas todas menos esta.
O Tejo leva barcos, leva mágoas,
e traz de volta a mesma água cansada.
Não peço que regresses. Sei que a morte
não faz exceções nem devolve cartas.
Só peço que esta casa se recorde
do modo como rias pela escada.
de um corpo que já não a aquece.
Ponho a mão no assento, e o junco cede
como cede a memória quando mentes.
Na cozinha, a chávena do costume
tem o rebordo escuro do café de ontem.
Não a lavo. Deixo que o tempo a seque
e que o pó lhe cubra a última vontade.
Há um casaco pendurado no cabide
com o cheiro do teu sabão, do teu suor.
Às vezes meto a cara no tecido
e fico ali, sem luto e sem consolo.
A cidade continua a acender-se
pelas janelas todas menos esta.
O Tejo leva barcos, leva mágoas,
e traz de volta a mesma água cansada.
Não peço que regresses. Sei que a morte
não faz exceções nem devolve cartas.
Só peço que esta casa se recorde
do modo como rias pela escada.
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