Poemas em Narrativa e Baladas

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Narrativa e Baladas pt 1 versão Pontos: 0

O último barco de Alcântara

Iniciado por @VentoDoTejo •
Foi numa quinta-feira de novembro,
quando o rio trazia o cheiro doce
das marés que já ninguém recorda,
que o velho Anselmo desamarrou o cabo.

Tinha as mãos gastas de cordame e sal,
sessenta anos a puxar redes vazias,
e no bolso do casaco de flanela
guardava a fotografia da mulher
que o mar lhe levou numa manhã de névoa.

Ninguém soube dizer para onde ia.
Uns juraram que o viram ao largo da barra,
o casco negro contra a luz das cinco,
o mastro a inclinar-se como quem reza.
Outros disseram que era só o reflexo
de uma gaivota rasando a água escura.

Na doca ficaram os companheiros,
de cigarro apagado entre os dedos,
a contar as ondas que faltavam.

Dizem que à noite, quando o fado cala
e as janelas de Alfama se fecham devagar,
ouve-se um remo a bater na correnteza,
um homem a cantar baixinho para alguém
que só ele ainda consegue ver.

E o Tejo, que nunca devolve o que toma,
continua a passar por baixo da ponte,
levando barcos, levando nomes, levando
o que resta de nós quando a maré sobe.
Narrativa e Baladas pt 1 versão Pontos: 0

O último carro da linha 15

Iniciado por @VentoDoTejo •
Desce a rua do crucifixo às cinco e vinte,
o bonde range nos carris como um osso velho,
e o condutor que já não sonha acende o cigarro
com as mãos que conhecem de cor cada paragem.

Vai dentro uma mulher que carrega um ramo de cravos
e um homem que perdeu o emprego na doca,
e vão dois namorados que ainda não sabem
que o amor é sobretudo paciência de esperar.

O bonde sobe a calçada, treme, para,
e a cidade lá fora é uma casa que se fecha.
Alguém assobia um fado que ninguém aprendeu,
e as luzes acendem-se nas janelas como cílios.

Na última curva antes do rio, o condutor
olha o Tejo e não diz nada aos passageiros.
Talvez pergunte ao rio o que foi feito dos anos,
talvez não pergunte nada, e o rio também não responda.

Descem todos na praça, cada um para seu lado,
levando o que puderam do que o bonde lhes deu:
a mulher o perfume dos cravos, o homem o silêncio,
os namorados a mão que ainda não largaram.

E o bonde recolhe vazio, com os bancos frios,
e o condutor apaga o cigarro na sola do sapato.
Amanhã há de haver outra viagem igual,
outra mulher com flores, outro homem sem nada.
Narrativa e Baladas pt 1 versão Pontos: 0

A última viagem do eléctrico vinte e oito

Iniciado por @VentoDoTejo •
O condutor já não conhece o caminho,
mas puxa a manivela por costume antigo.
O carro range nas calhas da Graça
como um barco velho a entrar no rio.

Levamos connosco quem já não viaja:
a mulher que vendia rosas ao Rossio,
o rapaz que assobiava fado sem saber,
o carteiro de bigode que morreu em Abril.

Na curva da Sé, o céu abre-se em chuva fina
e as pedras da calçada brilham como escamas.
Alguém puxa o cordel, ninguém responde,
o sino toca duas vezes, por engano.

Nunca chegaremos ao fim da linha,
e é isso que nos salva do destino.
O eléctrico sobe devagar a colina
com os seus mortos sentados, muito quietos,

e lá em baixo o Tejo continua
a fingir que é mar, a fingir que é pátria,
a fingir que leva a sério
a nossa pequena e teimosa viagem.
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